A eletricidade chega por uma só rede. Não existe uma tomada limpa e outra suja. Os elétrons se misturam, e o medidor da sua planta não diz de qual parque solar eles saíram.
Por isso, quando alguém pede «energia renovável» para o relatório, na prática pede outra coisa: poder demonstrar, com um documento que um auditor consiga verificar, que 1 MWh do seu consumo ficou atribuído a geração renovável. Essa é a conversa do I-REC.
Este guia explica o que você está comprando, como o certificado se move e o que fica no nome da sua empresa quando o processo fecha. Se a sua dúvida é como baixar o Alcance 2 com autoconsumo, um PPA ou certificados avulsos, está no artigo das três vias. Se o que trava é a frase «comprar energia renovável», comece por comprar versus demonstrar.
O que é um I-REC, em uma frase
Um I-REC(E) é o certificado digital que corresponde a 1 MWh de eletricidade renovável gerada e injetada na rede por uma planta, em um período concreto. Quem administra o padrão é a I-TRACK Foundation. Ele não rastreia elétrons. Registra o evento de geração (esta planta, esta data, este megawatt-hora) e transfere a titularidade desses atributos, separados do fluxo físico.
Esse certificado tem número de série. Não pode pertencer a duas empresas ao mesmo tempo. É a evidência que o GHG Protocol e o IFRS S2 aceitam para o Alcance 2 no método de mercado.
Quais dados o certificado carrega
Um I-REC não é um PDF genérico de intermediário. Ele traz, entre outras coisas:
- a planta que gerou;
- o país (o mercado dessa geração);
- a tecnologia (solar, eólica, hídrica, e assim por diante);
- o ano de geração, que neste mercado se chama vintage;
- um identificador único no registro.
Esses dados importam porque o auditor olha se o país e o ano batem com o consumo que você está reportando. O mais barato de outro mercado costuma sair caro na auditoria. Na prática, você compra do mesmo país em que consome e do mesmo ano que reporta.
Como se move: emitir, transferir, resgatar
O ciclo é curto de explicar e fácil de errar se viver em e-mail.
- É emitido. A planta, ou quem opera por ela, registra a geração. O certificado nasce.
- É transferido. Muda de titular. Pode passar por um operador de plataforma, um intermediário ou uma conta própria no registro. Enquanto não é resgatado, ainda pode se mover.
- É resgatado (redimido). Sai de circulação e fica no nome de alguém: sua empresa, uma sede ou um cliente. Depois não se revende. O que você recebe é o Redemption Statement: volume, vintage, beneficiário e identificador de cancelamento, pronto para a auditoria.
Resgatar é o passo que fecha a reivindicação. Sem resgate no seu nome, você tem um certificado em trânsito, não evidência de reporte. Uma consultoria ou a Cero Trade pode operar o processo. A reivindicação renovável é de quem aparece como beneficiário, com a mesma razão social do inventário.
Você não precisa abrir uma conta de participante no registro internacional. Um Platform Operator acreditado opera em seu nome: importar, transferir e resgatar.
Como entra no Alcance 2
O GHG Protocol pede, quando existem instrumentos contratuais no mercado, duas leituras do mesmo consumo elétrico:
- Localização (location-based): o fator médio da rede onde você consome. Continua lá, mesmo que você compre certificados.
- Mercado (market-based): o que você escolheu por contrato (PPA, suprimento com atributos ou I-RECs) e, para o que não está coberto, o residual mix.
Se você cobre 100% do consumo com I-RECs válidos e resgatados no seu nome, esse segundo número pode ir a zero. Não é contagem dupla: são duas formas de ler o mesmo megawatt-hora. O I-REC não apaga as chaminés da rede. Ele atribui origem renovável ao consumo que você reporta pelo método de mercado.
Um exemplo ilustrativo, com números redondos para a conta aparecer. Uma empresa em Santiago consome 1.000 MWh por ano. Se o fator de rede que ela usa fosse 0,4 tCO₂e/MWh, a leitura de localização seria 400 tCO₂e. Se ela retira 1.000 I-RECs válidos que cobrem esse consumo, a leitura de mercado pode ficar em 0. No inventário aparecem as duas.
O que um I-REC não é
Três confusões que chegam quase sempre.
Não é um crédito de carbono. Um offset diz «compensei em outro lugar» e entra em uma linha separada. Seu Alcance 2 continua igual. O I-REC diz «este MWh da minha eletricidade é renovável» e pode baixar o Alcance 2 no método de mercado. Parecem do mesmo mundo. Fazem trabalhos diferentes.
Não é consumo físico horário nem uma tomada exclusiva. Salvo se você produz e consome no mesmo lugar, os elétrons da rede continuam misturados. O certificado não transforma o seu medidor em um parque solar.
Não é um imposto nem um mandato da norma. O IFRS S2 e normas locais como a NCG 519 no Chile pedem medir e reportar o Alcance 2. Não dizem qual instrumento comprar. O I-REC é uma ferramenta do GHG Protocol. Uma decisão, não uma multa.
Perguntas que ouvimos na primeira conversa
Quantos I-RECs eu preciso? Tantos megawatts-hora quanto você quiser cobrir do seu consumo elétrico de rede. Se consome 10.000 MWh e quer evidenciar 40%, são 4.000 certificados. O volume sai do inventário, não de uma receita genérica.
Serve se eu sou cliente regulado? Sim. Na verdade é o caminho típico quando você não pode assinar um PPA. O certificado se compra separado do contrato de energia.
Fica no nome da nossa empresa? Sim, se for resgatado no nome de quem reporta. Confira se a razão social coincide com a do inventário. Um nome comercial diferente é uma das formas mais bobas de perder uma auditoria.
Posso usar para «net zero»? Eles cobrem o Alcance 2 elétrico pelo método de mercado, se o vintage e o país baterem. Não fecham Alcance 1 nem Alcance 3, e não substituem eficiência, autoconsumo ou um PPA quando esses caminhos existem.
Como se compra, na prática
Antes de pedir uma cotação, vale ter claras cinco coisas: quantos MWh de Alcance 2 você quer cobrir (por país ou sede, se for o caso); o período de reporte e o critério de vintage; o nome legal do beneficiário; o país de consumo; e a data em que precisa da evidência para o relatório ou a auditoria.
Depois o trabalho é de registro: origem compatível, transferência, resgate no seu nome e papéis que possam ser conciliados com o inventário. É aí que costumam aparecer os erros (beneficiário errado, vintage desalinhado, um PDF sem rastreabilidade). Por isso existe um operador de plataforma: para que essa última milha não viva em uma cadeia de e-mails.
Se você está montando o relatório deste ano, escreva para contacto@cerotrade.cl ou use o formulário do site. Revisamos volume, país e vintage com você.
Fontes
- GHG Protocol, Scope 2 Guidance: ghgprotocol.org/scope-2-guidance
- IFRS S2 (ISSB): ifrs.org
- I-TRACK Foundation: trackingstandard.org
- Chile, NCG 519 (CMF): cmfchile.cl