Resumo
Uma empresa que compra certificados de energia renovável em vários países precisa resolver três tarefas: coordenar a compra em todos os seus mercados, resgatar cada certificado em nome da entidade que consumiu a energia e guardar a evidência de cada ano. Uma estratégia organiza essas três tarefas antes da primeira cotação. Ela é construída em cinco passos:
- Definir o perímetro.
- Calcular o consumo residual.
- Fixar os critérios de compra.
- Centralizar a compra e atribuir o resgate por entidade.
- Arquivar a evidência por ano.

A estratégia é definida antes da primeira cotação: perímetro, residual, critérios, compra com resgate por filial e evidência anual.
Por que a estratégia vem antes da cotação
Nas nossas conversas com grupos que operam em vários países, um padrão se repete. Antes de perguntar pelo preço, eles perguntam como coordenar a compra entre as filiais. Cada país tem seus próprios fornecedores, moeda, requisitos legais e registro. Se cada filial compra por conta própria, o grupo acaba com critérios diferentes, contratos diferentes e evidências espalhadas entre várias pessoas.
Um caso ilustra o ponto. Um grupo com operação em nove países da região reportava 92 % de eletricidade renovável no seu último relatório. A tarefa pendente era cobrir a porcentagem restante, filial por filial, com um método que pudesse repetir todos os anos. Esse método é a estratégia.
Passo 1. Definir o perímetro
O perímetro é a lista de entidades que fazem parte da meta. Ele é montado como uma tabela com uma linha por razão social e estas colunas:
| País | Razão social | Ano de relato | Tipo de cliente (livre ou cativo) | Consumo elétrico (MWh) | Padrão ou meta que reporta |
|---|
A coluna do tipo de cliente define como o residual é calculado no passo seguinte. A última coluna indica a quem cada entidade responde: o relatório do grupo, RE100, SBTi ou um relato local. Essa tabela é a base dos passos seguintes, porque cada certificado é comprado e resgatado para uma linha concreta.
Passo 2. Calcular o consumo residual
O consumo residual é a eletricidade que ainda fica sem lastro renovável. Os certificados cobrem esse residual. O cálculo depende do tipo de fornecimento de cada entidade:
- Cliente livre. Negocia o fornecimento diretamente com um gerador, em geral por meio de um contrato de fornecimento (PPA). Alguns PPA incluem os certificados I-REC da energia entregue e outros incluem apenas a energia. Vale perguntar ao gerador o que o contrato inclui. Se inclui os certificados, esse consumo já tem lastro; se inclui apenas a energia, esse consumo soma ao residual.
- Cliente cativo (regulado). Compra a eletricidade da distribuidora e consome a mistura da rede. Para reportar esse consumo como renovável, precisa comprar certificados I-REC separados da energia, também chamados de certificados desacoplados.

No cliente livre, o PPA pode incluir os I-REC ou só a energia; o cliente cativo compra I-REC desacoplados para reportar o consumo como renovável. Um mesmo grupo pode ter entidades dos dois tipos; por isso o cálculo é feito linha por linha. O autoconsumo renovável, como painéis próprios, também é descontado do consumo antes de calcular o residual. A ordem completa para reduzir o Alcance 2 elétrico está no artigo Como baixar o Alcance 2 elétrico.
A precisão do cálculo depende do dado disponível. Quando há medição por entidade, o residual é expresso em MWh. Quando existe apenas a porcentagem consolidada do grupo, o residual é registrado como porcentagem até que haja a medição de cada filial.
Passo 3. Fixar os critérios de compra
Os critérios são definidos uma vez para todo o grupo e aplicados em cada país:
- País de origem do certificado, conforme o que o padrão de relato de cada entidade exigir.
- Ano de geração: o mesmo ano do consumo ou um intervalo permitido pelo padrão.
- Tecnologia, se a meta ou a política interna a especificar.
- Serviço de resgate: se o fornecedor resgata os certificados ou se a empresa faz isso no registro.
Com os critérios fixados de antemão, as ofertas de diferentes países são comparadas em igualdade de condições.
Passo 4. Centralizar a compra e atribuir o resgate por entidade
A compra é coordenada a partir de um único processo para todo o grupo, com critérios, prazos e condições comuns. O resgate, por sua vez, é feito por entidade: o beneficiário de cada certificado é a razão social da filial que consumiu a energia, e a localização indica o nome do ponto de consumo e o endereço completo.

Um único processo de compra para o grupo; cada filial recebe o seu próprio resgate, com a sua razão social como beneficiária. Essa atribuição exige cuidado porque o resgate é irreversível. Um certificado resgatado em nome de outra entidade deixa de servir para a filial que precisava dele. Também convém prever que cada razão social aprove e pague a sua parte separadamente, com sua própria ordem de compra.
Passo 5. Arquivar a evidência por ano
Para cada entidade e cada ano, o arquivo reúne:
- o comprovante de resgate emitido pelo registro;
- a quantidade de MWh e o período de consumo coberto;
- o contrato e a nota fiscal da compra.
Esse arquivo é o que se apresenta numa auditoria ou na verificação do relato. Manter o mesmo formato ano após ano permite comparar períodos e encurta o trabalho do ciclo seguinte.
Síntese
| Passo | Pergunta que responde | Resultado |
|---|---|---|
| 1. Perímetro | Quais entidades fazem parte da meta? | Tabela por país, razão social, tipo de cliente e ano |
| 2. Residual | Quanto consumo falta cobrir? | MWh, ou porcentagem, por entidade |
| 3. Critérios | Quais certificados servem? | Regras comuns para todo o grupo |
| 4. Compra e resgate | Como se compra e em nome de quem? | Um processo de compra, resgate por filial |
| 5. Evidência | Como se demonstra? | Arquivo anual por entidade |
Se a sua empresa opera em vários países ou com várias razões sociais, solicite uma sessão de diagnóstico: revisamos com você o perímetro e o consumo residual de cada entidade.
